terça-feira, julho 06, 2010

Cuidem dos nossos Fruturos! ou seriam Frutos? ou seriam Futuros?

Naquele mesmo domingo, mas quando voltava da biblioteca, próximo à 13h da tarde, dia de sol bonito, de luz amarelada e brisa fresca de inverno, entro no ônibus para casa.
Estou entretida, quando de repente um pai puxa um menino de aproximadamente uns 4 aninhos pelo braço de forma agressiva...do nada.
O menino parecia um indiozinho, lindo, começou a chorar e pedir pela mãe...que estava perto, mas não olhava para a criança.
Não sei se era raiva do mundo ou desgosto da sua vida de infância, mas aquele pai começou a ameaçar o seu próprio filho com frases do tipo " cala essa boca!" " você ainda não apanhou, tá chorando por que?" " quando a gente descer você vai apanhar!" e quanto mais ele falava, mais o menininho chorava, e mais ele falava...
De repente eu não me aguentei, começou a vir trechos do poema de Elisa Lucinda, ' meninos são josé', rodando enlouquecidamente na minha cabeça... eu sabia que ele podia me xingar de puta pra baixo...mas eu estava disposta por aqueles olhinhos pretos enxarcados olhando pra mim.

Eu falei, de forma doce:
" Moço, não fala assim com ele, não...ele tá chorando...ele só quer um pouco de carinho, moço...

Ele me interrompeu, fez um gesto com a mão para que eu parasse de falar...e disse que era seu filho e quem sabia como educar, era ele...

A criança ainda chorando olhava para a mãe como quem pedia.

Comecei a chorar...junto com o indiozinho... e a olhar para a mãe também pedindo um apelo!
" Meu deus mulher, como foi que tu pariu?! Olha pra essa coisa mais linda sendo agredida, sem mais nem por quê "

Mas a mãe colocava o dedo nos lábios como quem diz "shhh" para a sua cria...talvez com medo também de ser machucada...

Eu olho para o menino e em seu rosto tem cicatrizes...perto do olhinho e da boquinha...
Ai se eu soubesse se era desse pai, juro que denunciava...
mas não sei...não sei de nada....
Só sei que eu intervi!
E não podia ser diferente!


Trechos do poema ' Meninos são José ':

" Toda criança me arrebata.
Toda criança, por me olhar,
me arregaça as mangas do amor,
morro de emoção. (....)

Eu fico com as pernas bambas
quando quem me aponta é uma criança.
(...)
José é todas as galáxias de meninos,
porque são só verdades,
límpidas eternidades,
futuros mundos.
Belas!

Tenho vontade de defendê-las
das injustiças dos ditos maiores,
dos esticados que,
aprisionados,
querem aprisionar.
Por todo o sempre e agora,
toda criança quando chora,
respondo: que foi?
Quem não te tratou direito?
( Toda criança quando chora
acho que me diz respeito)

Não mimem crianças em vez de amá-las,
para não adoecê-las,
para não encouraçá-las!
Não oprimam crianças na minha frente,
vou interferir, vocês vão se danar,
vou escancarar!
Não usem crianças na minha presença,
tomarei o partido delas,
não terão minha parcimônia,
não vou compactuar!
Não cunhem nelas a tirania,
eu vou denunciar!

SOU MATERNAL DO UNIVERSO
MIL CRIANÇAS CAMINHAM COMIGO!
SOU ÁRVORE CUJA SEMENTE
SE CHAMA UMBIGO.
AI...TODA CRIANÇA
QUANDO GRITA MAMÃE
RESPONDO: QUE FOI?
( ACHO QUE É COMIGO!)

Elisa Lucinda ( maravilhosa!)

domingo, julho 04, 2010

Bufão no Padrão

Saio hoje cedo de casa.
Brinco com o pitbull solitário, do prédio comercial à venda a quase um ano, e corro para pegar o ônibus que chega no ponto.
Estou ali distraída quando me percebo no mesmo ponto, na frente do Supermercado Padrão, de frente pra ela, do mesmo ponto: eu no ônibus, ela sentada na calçada.
Com uma sacola de plástico amarela, do próprio supermercado, na cabeça, ela olha sagaz quase rindo para nós...
Nós, seres comuns, vestidos e pagantes, sentados em nossas cadeiras ambulantes.
Mas ela sempre me chama atenção, mas não sabia exatamente...
"talvez o saco amarelo na cabeça, ou seu olhar sempre vivo na sua condição, como será possível?"
Mas hoje eu entendi.
Tirei um papel do bolso e escrevi.
Surgiu na hora, mais ou menos assim:

Bufão no Padrão

Ela olha com gosto
Os olhares cruzados
dos passageiros.
De repente,
ela é a sensação!
E o seu estado de mendicância
Se faz com um sentido maior
pelo reflexo...
"o que será que eles pensam
ao olhar para ela?"
Será que percebem que
ela escolheu um ponto de ônibus
para morar?
Onde tem distração diária
de rostos exóticos,
e curiosos por traz dos vidros.
E mais...
Estes rostos,
a cada ônibus que pára,
Finalmente,
olham pra ela.