segunda-feira, março 14, 2016

DANÇA EM MIM

Poucas pessoas sabem mas meu caminho na arte se iniciou aos três anos de idade na dança. Nasci com um problema no fêmur e meus pés tocavam a ponta dos dedos uma na outra quando eu caminhava...o que para o meu pai era um "charminho", a longo prazo poderia me machucar perante a vida.
Todos os ortopedistas da época queriam operar, o que significava engessar uma criança de um ano por alguns bons meses. Criança esta que começou a caminhar desde os dez. Minha mãe não aceitava a hipótese de cirurgia e continuou buscando alguma alternativa menos agressiva que pudesse reverter o caso.

Foi brincando na pracinha que um médico, ortopedista, vizinho nosso, comentou se a minha mãe já tinha me levado em um ortopedista....claro que sim e claro que ela contou toda a saga. Ele simplesmente disse: coloque-a no ballet. Na época eles só aceitavam crianças um pouco maiorzinhas mas como era um caso clínico abriram a exceção. Fiquei cinco anos no ballet clássico. E o mais engraçado: eu odiava. Mesmo. Chorava todos os dias para sair da cama. Prender o cabelo ( bem puxado, com gel e grampos doloridos). Colocar aquela meia e colan apertados era a morte. Eu chegava na escola e a primeira coisa que fazia era ir ao banheiro para soltar levemente os grampos. Deixava eles bem frouxos para que no menor movimento caíssem despretensiosos pela sala..."oups'. Às vezes até a meia-calça eu tirava, ficava só com o maiôzinho para me sentir um pouco mais livre. Eu queria mesmo era dançar com os cabelos ao vento, girar e sentir o movimento livre sem aquela de Plié, Relevé, Jeté, Glissé...enfim. Já ansiava por viver algo como Isadora Duncan, mas tadinha, nessa época nem sabia que ela existira.

Mais tarde, estudando a história da dança descobri algo realmente curioso e que me revelou absolutamente tudo! Na Idade Média, ou Idade das Trevas, aqueles mil anos da nossa história ( que quase ninguém cita 1000 anos) em que quase tudo era pecado e você arderia no inferno.  Detalhe para a fogueira criada pela própria política da igreja e da monarquia: a qual julgava e decidia quem seria queimado no inferno aqui na Terra, para adiantar o serviço. Pois bem, a dança era uma dessas manifestações censuradas. Proibida por sua beleza, sensualidade, entrega, liberdade. Foi aí que um gênio, realmente uma alma dançarina que jamais poderia viver sem a dança, criou o Ballet Clássico. Uma forma rígida, simétrica, disciplinada, vertical e contida para poder ser aceita a possibilidade, naquele mundo, de se dançar para viver.

Após o Ballet, fiz alguns esportes e mais tarde encontrei a Dança do Ventre, aos 14 anos e foi amor à primeira dança. Talvez coisa de outra vida. Aquelas músicas, aquelas moedas, colores, panos, véus, tambores. Nossa, calaram fundo na minh’alma. No mesmo ano minha professora da época, Sara Samra, hoje falecida, me convidou para me apresentar profissionalmente pela cidade. Dancei em  Porto Alegre por vários locais e eventos, dentre eles a Casa de Cultura Mário Quintana, Variettá Bistro, Restaurante Al Nur. Foi, também, através da dança do ventre que conheci o teatro, hoje minha principal vocação e pesquisa. Esta mesma professora me informou que a professora dela, a libanesa Norma Said Said, dona do restaurante Al Nur, estava procurando uma atriz para uma peça que ela havia escrito e que desejava agregar à dança árabe. Fui fazer o teste, na cara de pau, sem nunca ter feito teatro na vida e passei. Talvez por não ter muitas opções de atrizes bailarinas, talvez por ela não ter muita experiência com direção teatral, ou, talvez por destino. Este era o tema da peça. 
Após ter migrado para o teatro foi que entrei em contato com a Dança Tribal através da maravilhosa bailarina Karina Iman. Com ela voltei para a dança do ventre aos 18 anos e conheci a Dança Tribal. Dança esta que ela havia aprendido diretamente com Shaide Halim, em São Paulo. A percursora da Dança Tribal no Brasil. Foi também com a Karina Iman que tive os primeiros contatos com as técnicas de Ivaldo Bertazzo, que mais tarde eu me aprofundei com a professora Ana Spyer na Escola de Arte Dramática; e conheci o músico multinstrumentista Daniel Namkhay hoje amigo e grande inspirador da minha Dança Tribal Pessoal. Tudo conectado. 

Mais tarde aos 23 anos, morando em São Paulo enquanto frequentava o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) fui ao Estúdio Halim e fiz algumas aulas de Tribal direto com a fonte. Porém entendi com esta e outras experiências que a bailarina que me passou o Tribal, no caso a Karina, já o havia trazido para a sua própria interpretação. E compreendi que minha identificação era maior com a pesquisa da dança que a Karina desenvolvera do que a da própria Shaid Halim. Sem desmerecer em absoluto sua importância e relevância. Apenas questão de identificação artística.

Por exemplo: Shaide Halim têm um tribal mais vintage, cômico, sexual. A Karina Iman têm um trabalho mais voltado para os elementos da natureza e a sacralidade feminina.
Na Escola de Arte Dramática da ECA/USP ( 2008 a 2010) que entrei em contato com a dança popular, dança contemporânea, dança afro, contato&improvisação, view points e outras práticas corporais que expandiram ainda mais minhas percepções sensoriais para o fazer artístico tanto teatral como para minhas habilidades na dança.

Voltando um pouco ainda em Porto Alegre, em 2004 comecei a praticar yôga e em 2005 dei início à formação como instrutora de SwáSthya Yôga interrompida também pelo foco nas práticas teatrais. Nesta época adentrei a Escola Popular da Terreira da Tribo de Formação de Atores, do grupo Porto-alegrense Ói Nóis Aqui Traveis. Com eles também fiz um experimento com Teatro de Rua em 2006. Adentrei a UERGS em Licenciatura em Teatro a qual cursei apenas dois anos. Quando embarquei para São Paulo, em 2007 e entrei para o Centro de Pesquisa Teatral ( de Antunes Filho).E 2008 na EAD/ECA/USP.

Em 2010, em São Paulo, na Unidade da Jaú, concluí minha formação como instrutora de SwáSthya Yôga ministrando aulas particulares, em academias e também voluntária nas dependência da Escola de Arte Dramática para alunos e funcionários.

O trabalho corporal sempre foi minha sina, pesquisa e paixão. Acredito que um corpo vivo, desperto, ativo, consciente é capaz de nos ensinar muitas coisas a respeito de nós mesmos: nossos limites, sonhos, prazeres, medos, desejos.

Além do yôga, sou formada como massoterapeuta (2004), atriz (2007), e nesta busca pela experiência física e sensorial pratiquei inúmeros esportes e modalidades artísticas diversas, dentre elas: natação, surf, ginástica olímpica, tecido e trapézio, biodança, squash, capoeira angola, maculelê, samba de roda, clonw, contação de histórias, fotografia e artesanato.

Para finalizar essa breve teia-biografia corpórea e artística não poderia deixar de citar a dança-teatro que hoje, mais inspira meu trabalho de pesquisa, e que conheci em meados de 2011 com a Cia Balagã de Teatro, mais precisamente com a atriz Ana Chiesa: atriz amorosa que viveu e aprendeu durante três anos de seus nove anos de vida no Japão, diretamente com o bailarino performer Kazuoh Ohno - o Butoh. Butoh é dança, e é teatro. Butoh é raíz. Butoh é Livre. Butoh é sentimento. Butoh é intimidade. Butoh é a dança dentro do ventre. Acho que não preciso dizer mais nada.

Hoje minha pesquisa na Dança Tribal é trabalhar além das danças étnicas de bases: flamenca, cigana, árabe e indiana. Acrescer o butoh, a dança contemporânea, a dança popular e a capoeira angola. Pesquisa esta para toda uma vida.

Quem tiver interesse em acompanhar estes passos fica aqui expresso meu convite e alegria de ter parceiros nesta caminhada: bailarinos, atores, pessoas sensíveis pra vida e para a arte que desejam trocar experiências, desejam levantar perguntas, transcender limites, arriscar sonhos, enfim. Estamos todos no mesmo barco: Dancemos!

" Dance. Dancem, ou estaremos perdidos" Pina B.



Só mais uma curiosidade: foi no teatro (também) que conheci de fato a vida e a obra de Isadora Duncan. Uma noite mágica, um teatro gigante desses da Brigadeiro Luís Antônio, em São Paulo. Nem me recordo exatamente qual. Mas lembro de adentrar naquele teatro, antigo, para mais de 600 lugares...vazio. Devia ter eu e mais umas quatro pessoas na plateia. Aquela tristeza. Para uma atriz dói baixinho no coração. Pensei em dar a meia volta ( afinal estava tudo escuro, e a atriz ainda não tinha entrado em cena) mas não. Isadora Duncan. Ficarei. Se for ruim, valerá a experiência. 
Meu Deus! Foi um dos espetáculos que mais marcaram minha história no teatro enquanto plateia! Primeiro que foi um homem que interpretou a vida de Isadora. Segundo, que o espetáculo era de uma sensibilidade...um monólogo sem falas. Apenas ele no palco: houve festas, houve danças, houve os filhos de Duncan, suas mortes, seus velórios, novamente suas danças...tudo sem uma única palavra. E você via tudo! TU DO. Um verdadeiro espetáculo. Estavam todos ali. Presentes. O palco estava cheio. O teatro estava cheio. O ator se apresentou para um teatro lotado. A energia era como ondas que marejavam os olhos dos espectadores o tempo todo...puro contemplamento. Só gratidão. Memórias que trago em relicário.


Acabei de achar essas informações:


ISADORA DUNCAN, A REVOLUÇÃO NA DANÇA – 
Estréia dia 3 de julho de 2010, sábado, às 19h. Texto e Direção: Roberto Cordovani. Direção de Produção Internacional: Bruno Portela. Elenco: Roberto Cordovani. Duração: 1 hora. Recomendação: 10 anos. Ingressos: R$40,00. Estudantes, maiores de 60 anos e classe teatral têm 50% de desconto. Sábado, às 19h. Domingo, às 17h. Até 15 de agosto.

SINOPSE: 

Baseada na autobiografia da revolucionária e célebre bailarina norte-americana, ISADORA DUNCAN abrange os principais acontecimentos da vida da artista. Contada em primeira pessoa, encenação apresenta as diversas personagens e acontecimentos que fizeram da vida da bailarina um referencial de liberdade, revolução, arte e tragédia.

Promoção de Domingo: Na compra dos dois espetáculos (O QUARTO DE GIOVANNI e ISADORA DUNCAN) ganhe 10% desconto. 
TEATRO BRIGADEIRO – Av. Brigadeiro Luís Antonio, 884 – Bela Vista, telefones: 3115-2637 e 3107-5774. Capacidade 700 lugares. Bilheteria funciona de terça a domingo, das 14 horas até o horário da última peça. Acesso para deficientes. Ar condicionado. Estacionamento conveniado na Av. Brigadeiro Luís Antonio, 759 a R$10,00. Café. Aceita cartão de débito.